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Alvará cassado sem processo administrativo: o que fazer?

Por Dra. Sarah Chahin · OAB/SP 460.20804 de outubro de 2026

Ter o alvará cassado pela prefeitura significa, na prática, ter as portas fechadas. Funcionários parados, contratos em risco e faturamento interrompido de um dia para o outro.

O que muitos empresários não sabem é que a prefeitura não pode cassar um alvará de qualquer forma. A lei exige um procedimento administrativo regular, com direito de defesa. Quando esse caminho não é respeitado, o ato pode ser questionado — e, em determinadas situações, é possível pedir ao Judiciário uma liminar para que a atividade volte a funcionar enquanto o caso é analisado.

Neste artigo, explicamos o que a prefeitura pode e o que não pode fazer, como identificar falhas no procedimento e quais cuidados tomar desde o primeiro momento.

O que é a cassação do alvará de funcionamento?

O alvará de funcionamento é a autorização do município para que uma empresa exerça sua atividade em determinado local. A cassação é o ato pelo qual a prefeitura retira essa autorização, normalmente porque entende que a empresa descumpriu alguma regra.

Os motivos mais comuns alegados pelas prefeituras são:

A prefeitura tem, sim, o poder de fiscalizar e de aplicar sanções — é o chamado poder de polícia. Mas esse poder tem limites. A cassação é uma das penalidades mais graves que o município pode aplicar, e justamente por isso precisa seguir regras rígidas.

Um ponto de atenção: a prefeitura não pode fechar um estabelecimento como forma de forçar o pagamento de tributos atrasados. Esse entendimento está consolidado há décadas na Súmula 70 do STF. Débitos de IPTU ou ISS devem ser cobrados pelos meios próprios, não com o fechamento da empresa.

A prefeitura pode cassar o alvará sem ouvir a empresa?

Como regra, não. A Constituição Federal (art. 5º, incisos LIV e LV) garante que ninguém será privado de seus bens sem o devido processo legal. Também assegura o contraditório e a ampla defesa nos processos administrativos.

Na prática, isso significa que, antes de cassar um alvará, a prefeitura deve:

  1. Notificar a empresa de forma clara, informando quais irregularidades foram apontadas.
  2. Conceder prazo para defesa, permitindo apresentar documentos, explicações ou corrigir o problema.
  3. Analisar a defesa apresentada antes de decidir.
  4. Fundamentar a decisão, explicando os fatos e as normas que justificam a penalidade.
  5. Permitir recurso administrativo, conforme a legislação local.

Muitos municípios têm lei própria de processo administrativo. Quando não têm, o Superior Tribunal de Justiça admite a aplicação subsidiária da Lei Federal nº 9.784/1999 (Súmula 633 do STJ), que exige, entre outros pontos, a motivação dos atos que impõem sanções (art. 50).

Existe uma exceção importante: diante de risco grave e iminente — à saúde pública ou à segurança, por exemplo — a administração pode adotar medidas cautelares imediatas. Mesmo nesses casos, a medida precisa ser motivada, proporcional e seguida da oportunidade de defesa.

Sinais de que o processo administrativo de cassação não foi respeitado

Algumas situações indicam que o procedimento pode ter sido conduzido de forma irregular:

A presença de um ou mais desses pontos não significa, automaticamente, que o ato será anulado. Cada caso depende da legislação municipal aplicável e da análise dos documentos do processo.

Alvará cassado: é possível pedir uma liminar para voltar a funcionar?

Sim, em determinadas situações. Quando a cassação ocorre sem o devido processo administrativo, a empresa pode buscar no Poder Judiciário a medida judicial cabível para questionar o ato. A escolha do instrumento adequado depende das provas disponíveis, dos prazos e das particularidades de cada caso.

Dentro dessa medida, é possível pedir uma liminar: uma decisão provisória, tomada no início do processo, que pode suspender os efeitos da cassação e permitir que o estabelecimento volte a funcionar enquanto a questão é julgada.

Para conceder a liminar, o juiz costuma avaliar dois requisitos:

A liminar não é automática e não encerra a discussão. Ela depende da análise do juiz sobre as provas apresentadas e pode ser revista ao longo do processo. Por isso, a qualidade da documentação reunida desde o início faz diferença.

Vale lembrar também que a anulação por vício de procedimento não impede, em regra, que a prefeitura instaure um novo processo, desta vez de forma regular. Corrigir eventuais irregularidades apontadas na fiscalização continua sendo importante.

O que fazer logo após a cassação do alvará

Algumas providências ajudam a preservar os direitos da empresa:

  1. Guarde todos os documentos recebidos: notificações, autos de infração, termos de interdição, lacres e a decisão de cassação.
  2. Peça cópia integral do processo administrativo na prefeitura. O acesso aos autos é um direito do interessado.
  3. Reúna o histórico do alvará: o alvará original, renovações, licenças sanitárias, AVCB e demais autorizações.
  4. Registre os fatos: datas, nomes dos fiscais, fotos do local e eventuais comunicações por e-mail ou aplicativo.
  5. Documente os prejuízos: faturamento interrompido, contratos afetados e folha de pagamento.
  6. Fique atento aos prazos: tanto o recurso administrativo quanto as medidas judiciais têm prazos que, se perdidos, podem limitar as opções disponíveis.
  7. Busque orientação jurídica especializada para avaliar o caso concreto antes de tomar qualquer decisão.

Perguntas frequentes sobre alvará cassado

A prefeitura pode lacrar meu estabelecimento sem aviso?

Apenas em situações excepcionais de risco grave e iminente, e ainda assim com decisão motivada e posterior oportunidade de defesa. Fora dessas hipóteses, a empresa deve ser notificada antes.

A prefeitura pode cassar o alvará por dívida de IPTU ou ISS?

Não. O fechamento de estabelecimento como meio de cobrança de tributos é vedado pela Súmula 70 do STF. A cobrança deve ocorrer pelos meios próprios, como a execução fiscal.

Quanto tempo demora para sair uma liminar?

Não há prazo fixo. O pedido de liminar costuma ser analisado no início do processo, mas o tempo varia conforme a vara, o volume de trabalho e a complexidade do caso.

A liminar garante que o alvará não será cassado de novo?

Não. A liminar é provisória e pode ser revista. Além disso, se a irregularidade foi apenas no procedimento, a prefeitura pode, em regra, instaurar um novo processo, desta vez respeitando o direito de defesa.

Preciso esgotar os recursos na prefeitura antes de ir ao Judiciário?

Em regra, não. A Constituição garante o acesso ao Judiciário independentemente do esgotamento da via administrativa. A estratégia mais adequada, porém, depende de cada caso.

Conclusão

O poder de fiscalização da prefeitura é legítimo, mas não é ilimitado. Um alvará cassado sem notificação, sem prazo para defesa ou sem decisão fundamentada pode ser questionado judicialmente. Nesses casos, a liminar é um instrumento que pode permitir a retomada das atividades enquanto o mérito é discutido.

Cada situação tem particularidades, e a análise individual do processo administrativo e da legislação municipal é indispensável.

Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui a análise individualizada de um advogado.

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Sarah Chahin Advocacia — OAB/SP 460.208

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